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Ana Lúc i a Me r ege
A bruxa
Meregilda
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O duende sumiu na mesma época e, pelo que sei, meus
pais e minha irmã sentiram muita falta dele.
Não sei se os lugares onde morei depois eram
assombrados. De vez em quando o banheiro ficava
alagado ou o bife queimava, mas essas provas não são
suficientes. Além do mais, minhas roupas passaram a
servir durante anos e ninguém escreveu uma linha
sequer nos meus cadernos. Minha vida era bem mais
tranquila do que antes. Mas não tão divertida.
Então, algum tempo depois de eu ter mudado para o
meu novo apartamento, comecei a perceber uma
presença estranha. Não era um duende nem um monstro.
Só descobri o que era algum tempo mais tarde, quando
minha filha Luciana tinha uns três anos. Foi aí que a
bruxa começou a nos visitar.
Eu disse bruxa, sim, mas fiquem calmos. A maioria das
bruxas é do bem, pelo menos quando a gente é legal com
elas. O que lhes dá má fama é o fato de que não são
pessoas comuns. Podem se vestir, falar e agir como todo
mundo, mas, olhando bem, dá pra ver que lá no fundo
elas são diferentes. Isso assusta mais do que vocês
podem imaginar.
Seja como for, a bruxa apareceu numa noite de chuva,
quando a Luciana não estava querendo ir se deitar. Eu já
tinha insistido, oferecido leite quente e cantado
musiquinhas pra ela, e nada. Fui ficando impaciente,
cheguei a contar um-dois-três, e mãe quando conta um-
dois-três pode apostar que a coisa é séria. Mesmo assim,
ão é segredo pra ninguém que existem casas
assombradas. Algumas podem dar dor de
cabeça aos moradores – quando têm fantasmas
de pessoas malvadas, por exemplo, ou aqueles monstros
peludos que se escondem no armário –, mas outros seres
podem tornar a experiência bem divertida.
O apartamento em que eu morava quando criança
era assombrado por um duende. Ele era bonzinho, não
brigava com ninguém nem fazia barulho, de forma que
os adultos da família até esqueciam que estava em
casa. Aí, quando ninguém esperava, ele fazia das
suas, bagunçando os livros do meu pai ou deslizando
um dedinho curioso pelo quadro recém-pintado da
minha irmã.
Eu também era alvo das travessuras do tal duende.
Uma coisa que ele fazia era encolher minhas roupas, um
tantinho por vez, de forma que depois de uns meses elas
não cabiam mais. Também escrevia nos meus cadernos –
eu tinha de comprar um novo toda semana. E cada
história era mais doida que a outra. A maioria eu joguei
fora, mas algumas guardei e ainda leio de vez em
quando. Só pra lembrar de como era viver com aquele
duende arteiro.
À medida que eu crescia, ele foi ficando mais discreto,
mas ainda aparecia de vez em quando. Nos fins de
semana, minha mãe ficava acordada até tarde, e jura que
escutava o duende entrar em casa pé ante pé. Isso só
acabou depois que me casei e fui morar em Portugal.
N
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14/9/2011, 10:39
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